Império da IA: Karen Hao em entrevista na ECA-USP

Frame do vídeo da entrevista, realizado por Ana Vitória, LAC (Comunicação ECA).

Em entrevista à ECA, Karen Hao, jornalista investigativa e autora de O Império da IA, analisou os impactos da inteligência artificial na produção acadêmica, no ensino universitário e na sociedade. A entrevista foi realizada durante o Esquenta do Congresso com Karen Hao, promovido pelo GEIA, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA) da ECA, em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Editora Rocco, no dia 30 de junho de 2026.

Impérios da IA e a monopolização do conhecimento

Hao chama empresas como OpenAI, Google e Anthropic de impérios como categoria analítica. A comparação se sustenta em três eixos: a extração de recursos sem consentimento (dados pessoais, propriedade intelectual de artistas, escritores e criadores), o controle sobre os fluxos de informação na sociedade e a imposição de um sistema de valores corporativos embutido nas tecnologias que produzem. Quando acadêmicos e estudantes utilizam essas ferramentas para pesquisa, argumenta Hao, estão, queiram ou não, ancorando a produção de conhecimento nos valores que essas corporações decidiram embutir em seus sistemas. A preocupação vai além da já conhecida erosão do pensamento crítico: trata-se do que significa permitir que um punhado de empresas desenvolva monopólios sobre as plataformas e infraestruturas com que imaginamos e construímos o futuro.

IA na universidade: liberdade de escolha, não obrigatoriedade

Sobre o papel da IA nos currículos acadêmicos, Hao defende que universidades devem levar a IA em conta, mas não da forma que o discurso corporativo sugere. Para ela, não deveria haver obrigatoriedade de uso dessas ferramentas por parte dos estudantes: se a missão da universidade é a formação de pensamento independente, impor o uso de tecnologias que controlam fluxos de informação e produção de conhecimento contradiz essa missão. O que os currículos precisam incorporar é a consciência crítica de que essas tecnologias existem, de que estão moldando relações de trabalho, interações sociais e consumo de recursos ambientais, e de que estudantes, como cidadãos informados, devem poder decidir como e se querem se engajar com elas.

Data centers no Brasil: energia, água e a ilusão da renovabilidade

Hao explica que as grandes empresas estão literalmente ficando sem terra e energia nos Estados Unidos e lançando seus olhos para geografias que presumem não oferecer resistência e oferecem incentivos fiscais. Sobre o discurso de que esses data centers utilizam energia renovável, Hao descreve o que chama de “contabilidade criativa”: empresas constroem projetos de energia renovável em territórios distantes, conectados a redes elétricas diferentes, e usam equivalências contábeis para declarar que seu consumo é “verde”, enquanto a energia que de fato alimenta o data center vem de fontes fósseis. Mesmo quando há uso direto de renováveis, a questão permanece: por que essa energia vai para o data center e não para a comunidade? Em países como Noruega e Islândia, a instalação de data centers consumiu a energia renovável disponível e forçou outras indústrias a recorrer a combustíveis fósseis. Para Hao, o mínimo que qualquer comunidade ou governo deveria exigir é transparência auditável sobre os impactos reais de energia e água e mecanismos que permitam interromper ou redimensionar projetos quando o consumo ultrapassa o que foi acordado. Se um projeto não tem esses dois elementos, não deveria ser desenvolvido.

Desmantelar os impérios, diversificar a produção

O caminho proposto por Hao é duplo: desmantelar os impérios e investir em novos centros de produção de IA. Sobre o primeiro eixo, ela destaca o crescimento de mobilizações populares: protestos contra data centers, processos judiciais de pais contra danos psicológicos aos filhos, sindicalização e greves contra a substituição de trabalhadores por IA, como forças capazes de forçar essas empresas a operar como negócios que oferecem trocas de valor equivalente, não como impérios que extraem sem retorno. Sobre o segundo, Hao defende que o Brasil estaria melhor servido desenvolvendo suas próprias tecnologias de IA, baseadas em abordagens mais eficientes e sustentáveis do que o paradigma de escalonamento ilimitado do Vale do Silício, orientadas por objetivos definidos pela e para a população brasileira, seja em educação, saúde, meio ambiente ou economia. A mensagem final é direta: nada disso é inevitável. A tecnologia não está dada; cada pessoa, seja estudante, jornalista, servidor público ou mãe, tem agência real para moldar como essa tecnologia vai funcionar e a quem vai servir.

Confira o vídeo da entrevista em inglês, com legendas em português.

**