Estética Artificial III: encerramento do semestre 2026/1

O próximo encontro do GEIA encerra o ciclo de leitura do livro Artificial Aesthetics (baixe aqui), de Lev Manovich e Emanuele Arielli, com a discussão dos capítulos 7, 8 e 9. Além da conversa sobre os textos, o encontro fará um balanço das atividades do semestre e o planejamento para 2026/2. É aberto a todas as pessoas interessadas, tendo ou não participado dos encontros anteriores.

No capítulo 7, AI Aesthetics and Media Evolution, Manovich aprofunda uma das questões mais instigantes do livro: a diferença entre como a arte e a IA comprimem a experiência humana. Enquanto as grandes obras literárias e visuais combinam padrões gerais com detalhes concretos, singulares e inesperados, o treinamento de modelos de IA opera por eliminação do raro: preserva o frequente e descarta o singular. Daí a pergunta que Manovich considera mais relevante do que “a IA pode ser criativa?”: pode um sistema que descarta o raro durante o treinamento gerar artefatos com a singularidade que associamos à arte? O capítulo situa a IA generativa numa genealogia que vai da busca probabilística (Google, 1999) à geração probabilística de mídia (2022), e propõe pensar seus produtos como mídia preditiva, ou seja: probabilidades materializadas. Uma versão anterior desse capítulo saiu em português como artigo na revista Matrizes, em 2024, com o nome de “Separar e Remontar: IA generativa através das lentes das histórias da arte e da mídia“.

O capítulo 8, From Tools to Authors, de Arielli, enfrenta a questão da autoria. Se a IA deixa de ser apenas ferramenta e passa a gerar conteúdo com crescente autonomia, quem é o autor? Arielli mapeia quatro posições: a visão antropocêntrica (o humano é sempre o autor, mesmo quando seleciona ou dá prompts); a IA como autora plena (cenário futuro em que se reconheceria intencionalidade artificial); a autorialidade remixada (“Remixed authoriality”), inspirada no pós-estruturalismo e na cultura do remix, em que a obra é amálgama de fontes coletivas filtradas pela máquina; e, por fim, o abandono da questão autoral em favor de uma apreciação puramente formal, como fazemos diante de um padrão decorativo que nos agrada sem que perguntemos quem o criou. O capítulo propõe ainda um limiar de relevância autoral: há obras em que a presença de uma mente por trás é essencial à experiência estética (uma pintura de Pollock, por exemplo) e outras em que não (uma música ambiente). A IA pode estar encontrando seu nicho justamente onde a “superfície” importa mais do que a autoria.

O capítulo 9, Made By and For Humans? The Issue of Aesthetic Alignment, também de Arielli, fecha o livro com a questão da demarcação: como distinguir o que é feito por humanos do que é gerado por IA, e por que isso importa? Arielli recorre à história das técnicas: a fotografia não eliminou a pintura, mas a transformou; a produção industrial não acabou com o artesanato, mas criou um mercado específico para o feito à mão. Da mesma forma, a IA pode não substituir a criação humana, mas redefinir o valor que atribuímos a ela, abrindo espaço para uma revalorização da imperfeição, do esforço e da singularidade como marcas do humano. O capítulo discute casos emblemáticos de indistinção entre obra humana e gerada por IA (o prêmio de Jason Allen com Midjourney, a recusa de Boris Eldagsen no Sony Awards, uma foto real premiada como IA) e propõe um “teste de Turing invertido”: não apenas verificar se a máquina passa por humana, mas garantir que o humano seja reconhecido como tal.

Sexta, 19/6, 14h. Quem ainda não se inscreveu por email, só clicar aqui, que enviaremos o link.