Erro, autoria e alinhamento estético: o encerramento do ciclo Manovich & Arielli

Glitch, Giselle Beiguelman, 2013.

Relato da 4ª reunião do GEIA*

O quarto encontro do GEIA encerrou o ciclo de leitura do livro Artificial Aesthetics, de Lev Manovich e Emanuele Arielli, com a discussão dos capítulos 7, 8 e 9. A conversa costurou os conceitos dos três capítulos – compressão e mídia preditiva (Manovich), autoria e esforço (Arielli), alinhamento estético e demarcação (Arielli) – com experiências concretas de uso de IA em contextos corporativos, artísticos e educacionais, fechando o semestre com um saldo de boas perguntas mais do que de respostas definitivas.

Compressão, erro e o apagamento do singular (capítulo 7)

A discussão do capítulo de Manovich partiu de seu argumento central: a IA generativa opera por compressão, e ao comprimir elimina sistematicamente o que é raro, particular e inesperado. Os artefatos resultantes são mídia preditiva — probabilidades materializadas que tendem ao estereotípico. A conversa se desdobrou rapidamente para a questão do erro: se o sistema é treinado para apagar desvios, o que resta como marca do humano é justamente a capacidade de errar, de desviar. Foi levantada a ideia de que “talvez nós sejamos o erro” do ponto de vista do sistema — a imprevisibilidade que a máquina precisa para não colapsar em homogeneidade, mas que ao mesmo tempo tenta corrigir. A analogia com o fork foi mobilizada para pensar o desvio como bifurcação produtiva, não como falha a ser eliminada. Outra provocação recorrente foi a de que a IA só consegue olhar para o passado: ideias genuinamente subversivas, como o heliocentrismo de Copérnico ou a relatividade de Einstein, não teriam espaço num sistema treinado para reforçar o que já é consenso.

Autoria, esforço e a sprezzatura artificial (capítulo 8)

O capítulo de Arielli sobre autoria provocou um trânsito entre filosofia e experiência vivida. Do lado conceitual, foi lembrado que a própria noção de autoria é uma invenção ocidental, consolidada no Renascimento e juridicamente formalizada com a propriedade intelectual a partir do século XVII; antes disso, a criação era coletiva e o criador individual não era uma categoria relevante. A hipótese de que estamos num momento em que essa noção está sendo novamente revista encontrou eco na discussão sobre a base de dados Books3, que alimentou modelos como o LLaMA com quase 200 mil livros obtidos sem autorização, incluindo obras de autores brasileiros como Machado de Assis, Clarice Lispector e Raduan Nassar, como descobriu essa matéria da Folha de 2025. A contradição foi sublinhada: empresas que defendem ferozmente a propriedade sobre o que produzem construíram seus sistemas na base da pirataria. A conversa convergiu para a constatação de que o direito autoral, sozinho, já não dá conta de organizar a remuneração dos criadores, e foram discutidas alternativas como fundos setoriais — nos moldes do Fundo Setorial do Audiovisual ou do ECAD — e a proposta de compensação coletiva à humanidade formulada por Bernie Sanders em artigo no NY Times. Do lado da experiência, o encontro trouxe relatos sobre o uso compulsório de IA em ambientes corporativos, onde a produtividade é medida pelo consumo de tokens, o chamado tokenmaxxing, gerando ciclos de retrabalho e frustração. O contraste entre o discurso do “maravilhamento” e a prática cotidiana, em que revisar o output da IA frequentemente demora mais do que fazer o trabalho diretamente, foi um dos momentos mais vivos da conversa.

Demarcação, canibalismo sintético e o teste de Turing invertido (capítulo 9)

O último capítulo trouxe a discussão para o território da demarcação: como distinguir o humano do artificial quando essa fronteira se torna cada vez mais difusa? Foi observado que já se começa a evitar certas marcas textuais – travessões como esse, expressões como “nesse sentido” – para não levantar suspeita de uso de IA, e que algumas pessoas estão deliberadamente inserindo erros nos seus textos para sinalizar humanidade. A ironia foi notada: chegamos ao ponto de precisar provar que somos humanos. Esse movimento conectou-se à proposta de um teste de Turing invertido, em que o desafio não é a máquina passar por humana, mas o humano ser reconhecido como tal. A discussão também tocou no canibalismo de dados sintéticos: na medida em que o conteúdo gerado por IA alimenta o treinamento de novas gerações de modelos, a diversidade dos outputs se degrada progressivamente, e o sistema converge para uma homogeneidade estéril. O paradoxo ficou claro: a IA precisa da imprevisibilidade humana para funcionar, mas tende a eliminá-la. Uma analogia com a comida orgânica e a industrializada foi proposta: enquanto o mercado da arte caminha para valorizar o que é imperfeito, singular e orgânico, o consumo massivo nas redes sociais se alimenta de artefatos sintéticos cada vez mais homogêneos produzidos por versões gratuitas e de menor qualidade.

O que nos faz humanos

O encontro convergiu para uma constatação transversal aos três capítulos: as discussões sobre IA estão se tornando, cada vez mais, discussões sobre o que nos faz humanos. A intencionalidade, o erro, o esforço, a empatia, categorias mobilizadas ao longo da conversa, não são apenas critérios para avaliar a máquina, mas espelhos que a máquina oferece para que revisemos nossas próprias definições. Foi lembrado o experimento de Weizenbaum com ELIZA nos anos 1960, um chatbot terapêutico primitivo que surpreendeu seu criador ao gerar respostas emocionais genuínas nos usuários, incluindo colegas acadêmicos. Esse caso sugere que a projeção de humanidade sobre a máquina não é um fenômeno novo, mas algo que a IA generativa amplifica a uma escala sem precedentes. O ciclo de leitura de Artificial Aesthetics se encerrou com o reconhecimento de que o livro formula boas perguntas sobre criação, percepção, autoria e valor mais do que oferece respostas fechadas, e que essa é justamente sua contribuição: fornecer um vocabulário filosófico e estético para um debate que, no Sul Global, precisa ser complementado com as dimensões política, ambiental e laboral que o livro não se propõe a enfrentar. O grupo retorna em agosto de 2026 com nova programação.

* Relato feito a partir de a) gravação em áudio, b) transcrição do áudio e c) formatação como relato no Claude, com o prompt “Transforme o texto em anexo num relato para o blog do Geia” e o relato anterior como modelo. Após, houve edição humana antes da publicação, e os coordenadores do GEIA assumem responsabilidade pela veracidade e integridade do conteúdo publicado.